Cultura Regional

Festa do Divino em Pirenópolis: quando a tradição de 200 anos encontra o turismo contemporâneo

Pirenópolis, cidade histórica de Goiás com pouco mais de 20 mil habitantes, se transforma completamente durante a Festa do Divino Espírito Santo. Por três dias, as ruas coloniais da cidade são tomadas por cavaleiros mascarados, procissões, danças e uma energia que mistura fé, alegria e uma certa loucura controlada que só os pirenopolinos sabem produzir.

A festa existe há mais de 200 anos. Chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses e encontrou em Pirenópolis um solo fértil para criar raízes profundas. Hoje é patrimônio imaterial do Brasil e atrai dezenas de milhares de visitantes anualmente — o que traz recursos, mas também tensões.

"A festa é nossa. Mas quando 40 mil pessoas chegam numa cidade de 20 mil, você precisa pensar muito bem em como gerir isso", diz o historiador local Geraldo Naves, que pesquisa a festa há 30 anos.

Os mascarados

O elemento mais icônico da Festa do Divino são os Cavaleiros Mascarados — homens a cavalo com fantasias elaboradas e máscaras que representam figuras históricas e mitológicas. A tradição de fazer as fantasias é passada de pai para filho, e algumas famílias guardam trajes com mais de um século de história.

Nos últimos anos, o número de cavaleiros aumentou — sinal de que a tradição está viva e atraindo jovens. Mas a pressão do turismo também gerou algumas distorções: fantasias mais elaboradas para impressionar visitantes, apresentações em horários adaptados para turistas, comercialização de réplicas de máscaras que alguns puristas consideram uma profanação.

O equilíbrio difícil

"Toda tradição muda. O problema não é a mudança, é quando a mudança destrói o que faz a coisa ser ela mesma", pondera Geraldo Naves. Para ele, o desafio de Pirenópolis é encontrar um modelo de turismo que gere renda para a comunidade sem transformar a festa num espetáculo para consumo externo.

A prefeitura criou um conselho de gestão da festa com representantes das famílias tradicionais, da Igreja, do setor de turismo e da sociedade civil. É um experimento de governança cultural que outras cidades com festas tradicionais observam com interesse.

Este ano, a festa acontece entre os dias 22 e 24 de maio. Quem for, que vá com respeito — e com disposição para se surpreender.

RA

Renata Albuquerque

Repórter e fotógrafa. Especializada em comunidades rurais e agricultura familiar, percorre o Brasil com câmera e caderno de notas.