Infraestrutura

Estrada que liga três municípios do Pará finalmente recebe pavimentação após 20 anos de espera

Por vinte anos, a chuva transformava a estrada em lama e o isolamento em realidade. Moradores de três municípios do sudeste do Pará — Marabá, São João do Araguaia e Brejo Grande do Araguaia — sabem bem o que significa ver a estrada virar um lamaçal intransitável por semanas. Ambulâncias que não chegam. Produtos agrícolas que apodrecem antes de chegar ao mercado. Crianças que faltam à escola.

Mas a partir desta semana, as obras de pavimentação de 87 quilômetros da PA-150 finalmente começaram. A previsão é que os trabalhos sejam concluídos em 18 meses, transformando uma estrada que era sinônimo de abandono numa via que vai conectar de verdade essas comunidades ao restante do estado.

"Minha mãe morreu esperando essa estrada. Eu criei meus filhos esperando essa estrada. Agora meus netos vão ver", disse Dona Conceição, 71 anos, moradora de São João do Araguaia, com os olhos marejados durante a cerimônia de início das obras.

O que muda na prática

Com a pavimentação, o tempo de deslocamento entre Marabá e Brejo Grande do Araguaia deve cair de mais de quatro horas (no período chuvoso) para cerca de uma hora e meia. Isso tem impacto direto no acesso à saúde — o hospital de referência fica em Marabá — e na comercialização da produção agrícola local, dominada pela pecuária e pelo cultivo de mandioca.

Caminhoneiros que fazem a rota regularmente estimam que a pavimentação vai reduzir os custos de frete em até 40%, o que deve se refletir em melhores preços para os produtores e menor custo de vida para os moradores.

Por que demorou tanto

A história da PA-150 é um retrato fiel das dificuldades de infraestrutura no interior do Brasil. O projeto foi elaborado pela primeira vez em 2006. Passou por três governos estaduais, sofreu com contingenciamentos orçamentários, ficou parado por disputas de licenciamento ambiental e foi reiniciado duas vezes antes de chegar à fase atual.

"É uma combinação de burocracia, falta de prioridade política e, às vezes, simplesmente falta de dinheiro. O interior do Brasil paga um preço muito alto por isso", analisa o geógrafo Paulo Sena, da UFPA, que estuda mobilidade rural na Amazônia.

As obras são financiadas com recursos do PAC e do governo do estado. A fiscalização ficará a cargo de uma comissão mista com representantes dos três municípios — uma novidade que os moradores esperam que ajude a garantir a qualidade e o prazo da entrega.

MO

Marcos Oliveira

Jornalista do interior. Nasceu em Montes Claros, cobriu o sertão mineiro por dez anos e acredita que as melhores histórias do Brasil estão longe dos holofotes.