Seu Antônio tem 63 anos, nunca terminou o ensino fundamental e hoje usa um aplicativo no celular para monitorar a umidade do solo do seu roçado de 4 hectares no sertão do Ceará. Não é uma contradição — é o resultado de um programa de assistência técnica que está transformando silenciosamente a agricultura familiar no Nordeste brasileiro.
O programa, desenvolvido pela Embrapa em parceria com prefeituras de 47 municípios do semiárido, leva tecnologia de baixo custo a pequenos produtores: sensores de umidade do solo, aplicativos de previsão do tempo adaptados para a região, e sistemas simples de irrigação por gotejamento. O treinamento é feito por técnicos que falam a língua dos agricultores — literalmente, em alguns casos, com materiais em cordel.
"No começo eu desconfiei. Achei que era mais uma promessa. Mas aí vi o resultado na prática", conta Seu Antônio. Em 2025, sua produção de feijão-caupi foi 2,3 vezes maior do que no ano anterior, com 30% menos água. "A tecnologia não substituiu o que eu sei. Ela me ajudou a usar melhor o que eu já sabia."
Números que impressionam
Os dados do programa, divulgados pela Embrapa neste mês, mostram resultados consistentes: entre os 1.840 agricultores participantes, a produtividade média aumentou 87% em dois anos. O consumo de água caiu 28%. E a renda familiar média subiu 41%.
O que chama atenção não é apenas o aumento de produção, mas a redução da vulnerabilidade. Agricultores que antes perdiam toda a safra numa seca agora têm sistemas de monitoramento que permitem antecipar problemas e ajustar o manejo.
Tecnologia com raiz
Uma das chaves do sucesso do programa é o respeito ao conhecimento tradicional. Os técnicos não chegam dizendo que o agricultor estava fazendo tudo errado. Chegam perguntando o que funciona e o que não funciona, e propondo ferramentas que potencializam o que já existe.
"O agricultor familiar do semiárido tem um conhecimento sobre o seu ambiente que nenhum aplicativo substitui. A tecnologia é um complemento, não uma substituição", explica a pesquisadora da Embrapa Dra. Fátima Bezerra, coordenadora do programa.
O programa deve ser expandido para mais 30 municípios até o fim do ano, com foco em regiões que ainda não foram alcançadas pela assistência técnica pública.